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sexta-feira, 1 de julho de 2016

Estudar é uma arte

Por todas as coisas que venho estudando, tem ficado muito claro o quanto o conhecimento humano é uma construção ativa do sujeito,em conexão com o meio, através de suas próprias vivências. Nesse sentido, é impressionante como uma simples lousa no ambiente de trabalho é um instrumento tão útil que pode fazer muita diferença.

Aos poucos, vão se reunindo coisas daqui e dali. Das mais diversas fontes elementos confluem para consolidar conceitos. Isso as vezes leva tempo. Ideias precisam ser (re)postas à visão.




Esquemas e anotações contribuem para que se estabeleça uma continuidade de pensamento. O esquema pode ou não fazer sentido para um observador externo; mas para o autor, são muito mais do que palavras. O ato de escrever, as ligações e a própria disposição visual dos elementos contam como referência; como ato livre de criação em torno de um conteúdo vai sedimentando um complexo de saber pessoal.

E depois de algum tempo, a lousa precisa ser apagada para novas coisas! Mas como jogar fora essa construção? É hora de transformar o esquema em palavras; um breve registro de apontamentos ajuda.

Com organização (senão não se encontra nada!), estes registros podem vir a contribuir futuramente para textos, ou para novos apontamentos.


O processo de dar um aspecto gráfico a ideias também pode ajudar a ensinar. Da mesma forma, vão se registrando conceitos centrais enquanto se expõe determinado assunto. Aos poucos, tudo começa a fazer algum sentido para os espectadores. Isso só vale para os presentes (realmente).




Assim, considerando que estudar é uma arte, uma pergunta não quer calar:  Por que não a ensinamos na escola, desde a mais tenra idade? Em outras palavras, o que queremos de nossos alunos é o pensamento autônomo, a resposta criativa, a diálogo com o conhecimento. Mas em geral não damos os subsídios para nada disso!  Quando os ensinamos a pesquisar? O exercício da interpretação de texto fica restrito a uma parte das aulas de línguas. Não costuma ser encarado como uma ferramenta importante. Quando exercitamos a interpretação não só de um texto, mas de um quadro, de uma cena de filme, de uma situação cotidiana, de uma paisagem? Quando estimulamos a escrita que não seja cópia de alguma coisa, mas uma tentativa de expressão própria?

Obviamente, todo o sistema de ensino precisa ser virado do avesso para que as coisas mudem. É preciso repensar que competências julgamos fundamentais para nossos alunos (assim fala muito bem Rubem Alves). É preciso serrar as pesadas grades curriculares e desativar as sirenes que repartem o tempo e minam nossas iniciativas. Aí sim teremos tempo para o principal: traçar juntos estratégias de ensino que levem os alunos a desenvolver competências uteis e pertinentes para o seu ser no mundo.

Mas enquanto isso não acontece, pequenos ajustes e mais atenção ao ensino da arte de estudar podem ser implementadas individualmente em nossas salas de aula, dia após dia.

Para pensar no assunto:

Considerações sobre o ato de estudar (FREIRE,1981)

http://www3.fsa.br/localuser/flavio/informatica%20e%20sociedade/paulo%20freire%20-%20ato%20de%20estudar.pdf


quinta-feira, 9 de junho de 2016

EaD e a Filosofia na Unisul Virtual

Por Marciel Evangelista Cataneo

A educação a distância não tem como objetivo substituir o ensino presencial, mas sim articular-se com este de maneira complementar, sinérgica, produtiva e criativa.
O objetivo fundamental da educação a distância é o mesmo que sempre animou a atividade filosófica: ampliar as possibilidades de produção e acesso ao conhecimento e promover a democratização do ensino superior permitindo o ingresso de parcelas da população até então, impedidas de cursar a universidade.
Recordamos que o ensino da filosofia sempre conviveu com a distância, no espaço e no tempo, entre o conhecimento produzido pelos grandes filósofos e o indivíduo disposto a apreendê-los. Distância vencida pelas tecnologias então disponíveis: relatos orais e textos escritos.
O Decreto n.º 2.494, de 10 de fevereiro de 1998, que regulamenta o art. 80 da Lei que dispõe sobre as Diretrizes e Bases da Educação Nacional no Brasil, estabelece que os certificados e diplomas de cursos a distância terão validade nacional define a EaD como um processo em que o acadêmico constrói o conhecimento interagindo com professores e outros alunos de forma independente da relação tempo-espaço. Desta forma, sua responsabilidade passa pelos aspectos: como estuda, onde estuda e com que freqüência estuda.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Aprendendo com Freire

Uma coisa que APRENDI com Paulo Freire (No sentido integral, onde real aprendizado leva a uma mudança de comportamento) e estou de algum modo conseguindo colocar em prática é o exercício de enxergar o aluno como próximo, como companheiro da aventura da aprendizagem e não como "material de trabalho". Transcender a dicotomia professor-aluno, que representa um aspecto particular de uma dicotomia mais fundamental entre sujeito e objeto, é de fato um desafio; mas que depende mais e mim, da porta da sala de aula para dentro. É algo que se pratica dia a dia, em cada fala, em cada confronto, provocação ou risada. 

Uma coisa que aprendi com Paulo Freire, mas que ainda não sou capaz de colocar em prática é a proposta de uma educação onde o educando comece a tornar-se co-autor de sua própria educação. Onde o próprio aluno (oprimido) comece a tomar consciência da sua passividade frente ao sistema educacional (opressor) e da possibilidade de superação desta passividade a partir de atitudes diversas, na companhia do professor.  Este é um desafio que infelizmente não depende apenas de meus esforços pessoais. Nele encontra-se imbricada toda a configuração da escola, do  formato fragmentado das matérias, da falta de tempo generalizada e da pressão alienante "em tempo real" da cultura de massa através dos celulares, tablets, etc, etc.

Mas, quem sabe, a prática de um aprendizado leve ao outro...

quinta-feira, 5 de maio de 2016

O "modo escola"

Frequentemente me ocorre que, em nossa sociedade contemporânea, a escola há muito tempo deixou de ser o lugar de aprender para converter-se simplesmente no lugar de formatar e moldar o sujeito para as regras do jogo.

No campo teórico, essa perspectiva foi levantada inicialmente por Marx e desenvolvida por seus seguidores, como Louis Althusser, para quem a escola figurava como um "Aparelho ideológico do Estado".

Entretanto, os tempos são outros e a complexidade do momento em que vivemos não se deixa apreender pelos dualismos (burguesia-proletariado; direita-esquerda) nem pelas já cansadas, mas sempre presentes, teorias da conspiração. Se a escola continua a moldar indivíduos para seus papeis sociais, ajudando a manter o status quo, isso certamente não é planejado por grandes vilões mal intencionados e seus planos diabólicos. Antes, tudo se passa de forma muito mais sutil e automática.

Aula após aula, matéria após matéria, sinal após sinal...Para boa parte dos alunos, trata-se apenas de uma burocracia a ser cumprida. Para boa parte dos professores, também. A escola talvez seja um dos espaços sociais em que a crise de nosso tempo se manifeste de forma mais evidente: o automatismo assume tamanha proporção que toda forma de resistência nem chega a caracterizar como subversão. Tentativas individuais de inovação tendem a se esvair em meio ao fluxo incessante de palavras e atividades cotidianas; se perdem no ruído do dia a dia.No ritmo diário da escola pública, uma personagem como a do professor Keating, em Sociedade dos poetas mortos, provavelmente seria bem menos sedutora para os alunos e menos perigosa para a ordem geral. Um excêntrico e nada mais.




Mas me parece que para compreender esse cenário de desinteresse generalizado é preciso agregar ao tema da alienação (para além da dimensão sociopolítica) um componente epistemológico, que vou chamar aqui de "modo escola".

Alunos na escola se comportam de um modo determinado. Dentro e fora de sala de aula suas mentes parecem entrar no "modo escola", que paradoxalmente fecha muitas das comportas de aprendizagem.  Basta vê-los em outros ambientes e são pessoas diferentes; a mente já não trabalha na mesma função. Este "modo escola" parece emergir da contínua repetição de uma só ação epistêmica: encontrar a resposta para perguntas predeterminadas; como naqueles jogos infantis de encaixar as peças.
 
 Os espaços já estão dados. Não há criação; só há adequação. É isso o que a escola tradicional espera dos alunos e é isso o que os alunos (se forem "bons alunos") darão à escola.
 

Não apenas alunos operam no modo escola, mas também professores, gestores e até mesmo os pais. Por isso mesmo, romper com este ciclo se torna muito difícil a partir de iniciativas isoladas.

 


Bem, isso não é novidade. Atualmente, além de grandes referências teóricas em Filosofia da Educação, até mesmo as propostas curriculares para o ensino escolar passam a exigir da educação um componente reflexivo-construtivo que se propõe a superar o modo escola. Porém, se exige do professor e do aluno aquilo que não se dá. No ritmo do sinal sonoro que marca as aulas, não há tempo para criar. Na prática, as "paradas pedagógicas" em uma escola tendem a ser consumidas por problemas administrativos, disciplinares e organizacionais; raramente chegam perto de se converter em um espaço de criação coletiva.

 Enfim, uma outra educação precisa desconstruir não só as figuras e o quadro que as encaixa, mas toda a brincadeira!

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Sociedade disciplinar e sociedade de controle



As sociedades disciplinares atingiram seu apogeu no início do século XX. Em uma sociedade disciplinar o indivíduo não cessa de passar de um espaço fechado a outro, cada um com suas leis: primeiro a família, depois a escola, o exército, a fábrica e eventualmente a prisão, que é o meio de confinamento por excelência.

Mas segundo Deleuse (1992, p.129), após a segunda guerra mundial as sociedades disciplinares entraram em uma crise generalizada, convertendo-se em sociedades de controle. Ao contrário das sociedades disciplinares que moldavam os indivíduos distintamente pelas instituições de confinamento, nas sociedades de controle, os indivíduos passam por um processo contínuo de modulação e são controlados por meio de senhas de acesso, câmeras, cartões, etc. São agora os procedimentos e a burocracia que nos disciplinam a agir conforme o esperado.

De fato, vivemos em uma sociedade "livre", onde ninguém nos força a nada, mas estamos todos cada vez mais sem tempo para fazer escolhas autênticas e aproveitar a vida por conta de nossas incessantes obrigações profissionais e sociais. E a escola nesse contexto?

Ora, a escola encontra-se perdida entre a ação disciplinar, já não tão enfaticamente requisitada pela sociedade de controle, e outras formas de controle gradualmente implementadas no meio escolar. Ainda que de posse de discursos pós-modernos e progressistas, a maior parte dos professores tenta, cada um a seu modo, continua tentando  manter a abordagem disciplinar na qual foram educados, sem a menor ideia de como fazer algo diferente disso com seus alunos.


A burocracia da escola, entretanto, mantém implícita a lógica do controle através da nota e da aprovação.  Em certo sentido, a educação obrigatória tornou-se um rito necessário para a formatação dos novos integrantes da sociedade.  


A este respeito, o filme Educação Proibida oferece um questionamento bastante interessante sobre as origens da escola tradicional e sua função na sociedade.






https://youtu.be/-t60Gc00Bt8










DELEUZE, G. Post-scriptum sobre as sociedades de controle. In: Conversações, 1972-1990. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992. p.219-226. 

terça-feira, 26 de abril de 2016

REFLEXÕES CONTEMPORÂNEAS





Hoje eu convido você a visitar ou a revisitar a entrevista  feita com Zygmunt Bauman no programa Fronteiras do Pensamento, apresentado no ano de 2011. 

Bauman trata de questões muito atuais e questionadoras a respeito da democracia, da individualização da sociedade, entre outros temas. 

Aproveite e boa reflexão!

Abraços,
Luciana

sábado, 23 de abril de 2016

Uma crônica sobre a compreensão


Um erro muito comum ao ensinar é subestimar aquilo que o aluno não sabe. Me parece que boa parte da incompreensão em sala de aula tem origem no fato de o professor pressupor conceitos, ideias e regras que o aluno já deveria saber para estar naquela  série. E quando detectamos esses lapsos, nossa reação de surpresa, espanto e até mesmo indignação ("Mas como vc não sabe isso!!?) tende a fechar muitas portas na comunicação educador-educando.
video

O relato do vídeo a seguir (dezembro de 2014) nos leva a pensar sobre qual o ponto de partida para uma relação realmente produtiva de conhecimento e o tempo e dedicação que isso demanda.
A esse respeito venho tentando praticar uma postura de abertura e boa vontade diante de qualquer coisa que um aluno não saiba, independente de sua idade ou posição; sem juízos de valor.  "Não sabe, vamos aprender."  Infelizmente a dura rotina do sinal sonoro, das avaliações e notas não nos deixa muito tempo para brincar de aprender. Já dizia meu amigo e filósofo Dr. Evandro Brito:  "Quem estuda não tem tempo de aprender"! Ainda assim, é sempre possível falar sobre muitas coisas.

Mas levando o assunto mais para o lado da epistemologia (Teoria do conhecimento), é bastante comum que o professor pressuponha uma simetria de compreensão entre o que é falado por ele e ouvido pelo aluno; ou expresso por um texto e lido pelo aluno. Mas e quando o nível de compreensão fica muito aquém do esperado? Como medir isso?  Será que a ausência de dúvidas significa necessariamente a presença de conhecimento? Ou, no mais das vezes, representa um indicativo de que a compreensão não chegou a níveis mínimos para um diálogo? É preciso que o professor se torne um curioso sobre a compreensão humana, um pesquisador e experimentador da cognição.


Para depois do vídeo:

*ao falarmos sobre o "urbano", perguntei para a menina se ela conhecia alguma cidade grande. Ela disse:   "Florianópolis."  Então comecei a perguntar rápido: "Nunca foi para Porto Alegre, para Curitiba, São Paulo. Rio de Janeiro, Brasília?
Enquanto ela ria, eu disse: "Brasília eu também nunca fui."
 Enquanto seguíamos conversando ela passou a procurar sobre Brasília no computador, deixando de lado o assunto "Japão".

**É claro que se chego em uma sala com um texto ou outro material didático com a mesma mensagem visualizada no site pela menina, os alunos vão lidar com isso de acordo com suas diferentes capacidades de interpretação. Mas o ponto é que o espaço da sala de aula permite essa interação "dissimulada", onde o aluno maneja o material, sem ter realmente consciência do que está fazendo. Como todos estão fazendo o mesmo , o contexto coletivo não permite que o professor se dê conta do quê realmente cada aluno está absorvendo daquilo.  Pense nesse trabalho individual e na realidade de uma sala de aula com 30 a 35 alunos e terá a realidade da educação escolar! (Rousseau talvez esteja se remexendo no caixão!).