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sábado, 15 de julho de 2017

Sobre as nossas palavras

As nossas palavras não são simplesmente “palavras”. A nossa palavra é o nosso mundo, o lugar de onde viemos, os lugares por onde nós passamos e o lugar onde estamos. A nossa palavra, somos nós. Falar é sair de si, exteriorizar-se existir. A palavra nos põe no mundo e diz ao mundo, quem somos. Conversamos para dizermos, para nós, pros outros, para o mundo, quem somos. Nossa palavra nos dá a conhecer. Por isso, nós os seres da palavra, sempre tivemos muito cuidado com as nossas palavras. Elas nos “humanizaram”, nos fizeram sociais, criaram civilizações, gestaram a história, e a mais importante das conquistas civilizatórias: o diálogo. A nossa história é feita das nossas palavras, a sociedade e a civilização, de diálogo.
Pensar, falar, escrever, pensar o escrito, e novamente pensar o falado, pensar o escrito, e falar, e escrever. Assim como acontecer na vida, no existir, acontece na filosofia. Palavras não são simplesmente palavras. É a existência humana e a filosofia, acontecendo.
Quando no passado, nossos pais e avós diziam: “te dou a minha palavra”, eles estavam fazendo muito mais do que firmar um compromisso, um contrato, um negócio jurídico. Eles estavam dizendo “quem” estava ali, com “quem” o interlocutor estava falando.  Ao dizerem: “te dou a minha palavra”, se afiançavam na história pessoal, nas relações familiares e sociais, nos seus valores, no caráter – marca indelével que acompanha, ou não, a palavra.

Dentre as muitas coisas que perdemos, nos tempos hodiernos, a de que mais sinto falta é a “força” da palavra. Vivemos sufocados por palavras e nunca se falou tanto sobre tanta coisa. Mas isto não tem sido de valia, para nos darmos a conhecer e para conhecermos os outros. As palavras carecem de serem acompanhadas das pessoas. E sempre que dialogamos, não queremos as palavras, queremos as pessoas. Encontrar nelas o “existir”. E paro por aqui, pois, “quem fala demais dá bom dia ao cavalo” – não que “ele” não mereça! 

sábado, 13 de maio de 2017

Série Resenhas

Eis mais uma das produções derivadas de exercícios avaliativos solicitados nas Unidades de aprendizagem. Desta feita, uma produção de um estudante de Administração para Filosofia e ética na gestão de negócios.



Ética e Vergonha na Cara!

Roberto Cezar Pereira[1]

Este é o título de um livro escrito por Mário Sérgio Cortella e Clóvis de Barros Filho, a partir de um diálogo entre os dois, no qual vão surgindo os seguintes temas: A ética da conveniência; A ilusão moral do foco no resultado; Qual é o resultado que torna justo o caminho?; Ética como Instrução; Não há vida sem escolha e não há escolha sem valor; Corrupção: Consequência do sistema?; Uma questão de escolha; A corrupção e o sistema político; A corrupção e a família; e É vergonhoso não ser querido.
            Como pai, o capítulo que despertou minha atenção foi o A corrupção e a família, o qual vou tentar resenhar a seguir. Nele Cortella inicia afirmando que ao falarmos de vida devemos falar de vida pública e então dividi-la em vida pública privada – o indivíduo – e a vida pública estatal – o governo, parlamento, a justiça e todos os órgãos do Estado que objetiva preservar a vida ou controlar o próprio Estado.
            Ele defende a necessidade de a família atuar como bancada para impedir a corrupção na vida pública privada, ou seja, pais devem ser firmes, não aparentar frouxidão de atitudes. E exemplifica que se dentro da família a corrupção for admitida, ela se estabelecerá e partir daí destruirá a disciplina, ordem e sanidade social. Defende o princípio do exemplo familiar para o indivíduo e evitar qualquer contradição, mesmo às custas de possíveis constrangimentos, pois isso, segundo ele, gera um efeito maior de natureza ética na formação e educação dos filhos.
            Quanto ao papel da escola, ele expõe a dificuldade do professor, muitas vezes, de exercer seu papel de complementar no exemplo e na cobrança da correção de atitudes dos alunos, porque os pais, em sua maioria, trocam a relação de ensino pelo Código de Defesa do Consumidor ao tratar com os professores, transformando uma relação que inicialmente visaria formação científica, cidadã e de convivência ética saudável em mercadoria. Nesse caso, segundo ele, não há uma corrupção monetária, mas, ainda pior, uma corrupção que apodrece a convivência decente.
            Ele aponta também a corrupção na troca de favores e, mais uma vez, lembra da necessidade de inflexibilidade, principalmente na família, para diminuir qualquer chance de corrupção. Aponta mecanismos que cercam a possibilidade humana de corrupção como o estabelecimento de regras de convivência que permitam ao indivíduo a autonomia, mas não a soberania, através da formação e coerção e, enaltecendo os exemplos das boas escolhas.
            Por fim, Clóvis elenca critérios que definem modos particulares pelos quais existimos em sociedade, os quais eram, durante muito tempo, dever exclusivo das famílias e comunidades repassá-los. No entanto tal papel, hoje, foi transferido ao sistema educacional, em sua quase totalidade, por ter ocorrido o que ele chama de corrupção de modos de existência por princípios de existência social.
            Ao mesmo tempo, há também, um esforço de perpetuidade das posições sociais e a educação está assumindo mais o papel de reprodução dos modos de dominação, das posições sociais, mais voltada à consequência do que orientada a princípios morais de convivência.
            O papel de moralizador e exemplar tornou-se difícil tanto para pais quanto para educadores, visto que os filhos mostram desencanto e desdém do modo de vida atual por vislumbrarem que no futuro tornar-se-á ultrapassado.
            Mesmo com todos os problemas e necessidades apresentadas pelos autores ainda podemos perceber que nem toda a vida pública privada ou estatal atual está corrompida. Exemplo disso foi uma reportagem apresentada pela Rede Globo de Televisão no programa dominical Fantástico, no dia 30 de abril do corrente ano, no qual foi apresentada uma cidade na Suécia onde podemos colher muitos exemplos de condutas éticas e exemplos positivos tanto dos indivíduos, quanto de sua classe política, dos quais Cortella pede que sejam exaltados.
            Um dos aspectos que podemos extrair do texto e que também é tratado no livro didático Filosofia e ética na gestão de negócios (CATANEO E OUTROS, 2011), é “a falta que a ética faz” em nossa sociedade. Ou seja, há uma necessidade de repensarmos nossos atos e pensarmos enquanto sociedade, a começar por nossas famílias, para que consigamos viver e morrer segundo princípios e fins e não por aquilo que é só um meio. Devemos sempre agir tendo em vista o objetivo final e não pensar no prazer momentâneo de um ato isolado, além de não nos eximir de nossas responsabilidades.


Referências

CATANEO, Marcel Evangelista. Filosofia e ética na gestão de negócios. 2. ed. Palhoça: UnisulVirtual, 2011.

CORTELLA, Mário Sergio; FILHO, Clóvis de Barros. Ética e Vergonha na Cara! Campinas, SP: Papirus 7 Mares, 2014.


[1] Estudante do curso de Administra da Unisul.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Bom dia

  Todos nos queixamos da insensibilidade do mundo e da correria do dia a dia. Elas se fazem sentir a todo momento, no trânsito, no trabalho, nas pequenas interações do cotidiano. 










  A escola, sem dúvida, não escapa dessa regra. O sinal sonoro marcando o início e o fim de cada aula deixa bem claro e nos lembra que não há tempo para muita espontaneidade. E nesse ritmo a escola reproduz o ritmo do mundo.




 



  Mas muitas vezes nos esquecemos que a realidade não é um dado externo e independente de nós; ela está aberta, passível de ser modificada a todo momento. Ela é construída coletivamente e, portanto, sensível à nossa interação.

  Como um observador constante do ambiente escolar, notei Um detalhe curioso: Quase sem exceção, os professores, ao adentrar à escola passam pelos alunos como se não os vissem. Estes, por sua vez, tampouco esperam qualquer interação com os mestres diferente daquela que se processa no interior da sala de aula.  Em meio à animação do pátio da escola, o professor, em geral, é apenas um passante.

  Pequenas atitudes como essa, todas juntas, contribuem para a composição de um cenário cinzento; onde o brilho e a vivacidade do conhecimento são constantemente bloqueados.

Comecei, então, a distribuir "bom dias" indiscriminadamente; sobretudo aos menores e àqueles que não são meus alunos. Ao passar pelo portão de entrada, às 7:30 da manhã, está valendo:  quanto maior o número de bom dias eu conseguir dar no caminho até a sala dos professores, melhor.


Olhado inicialmente com desconfiança, e até com certo incômodo hoje começo a perceber algumas mudanças de comportamento. Neste contexto, os feedbacks são variados. Mas não raramente consigo ver nos olhos de uma criança, ou de um jovem, a surpresa e a satisfação de ter sido notado. Um minúsculo momento onde compartilhamos o fato de sermos, companheiros do mesmo mundo...

E assim o dia começa mais suave.






domingo, 16 de abril de 2017

Arbitrariedades institucionais




   A docência não se faz somente dentro de sala de aula. O encontro diário entre educador e educandos é a ponta final de um processo bem maior que envolve estudo, preparação, criatividade e reflexão crítica sobre a própria prática. Nas palavras de Paulo Freire: "A prática docente crítica, implicante do pensar certo, envolve o movimento dinâmico, dialético, entre o fazer e o pensar sobre o fazer." (Pedagogia da Autonomia, 1.8)


Obviamente, boa parte dessa tarefa se faz fora da escola, juntamente com correções de provas, formulações de avaliações e toda a burocracia de notas, faltas e registros de conteúdos. Isso para não falar no planejamento conjunto das atividades da escola como um todo, como dias festivos, projetos, feira de ciências, etc.


É por isso que se pode afirmar que há uma especificidade no trabalho do professor, a partir da qual se considera que 1/3 de sua jornada de trabalho deva ser destinada a atividades extra-classe. Isso é lei (Lei n° 11.738/2008) e há uma tabela que determina, a partir da duração total da jornada de trabalho, quanto se deve cumprir em interação com os estudantes e quanto é destinado a atividades extra-classe. Veja abaixo um trecho da tabela, que determina a carga horária da 20 hs aula.



*A segunda coluna destaca o tempo de interação com os estudantes e a terceira o tempo destinado a atividades extra-classe.








Agora saiamos um pouco do honroso solo das leis em direção à realidade da escola pública. Veja o que aconteceu comigo neste ano de 2017 (vídeo abaixo):






Enfim, só estando no cotidiano da escola pública para vislumbrar com mais clareza a demagogia dos discursos públicos quando se fala em qualidade de educação.  A este respeito são bem esclarecedoras as conclusões do parecer do conselho nacional de educação (Reexame do Parecer CNE/CEB no 9/2012, que trata da implantação da Lei no 11.738/2008,):
Nos dias atuais, a organização e a gestão do processo educativo, nas escolas, estão permeados pelos métodos gerenciais próprios da empresa privada, capitalista, na qual os trabalhadores são organizados por funções repetitivas e sequenciais, sem que qualquer um deles domine todo o processo produtivo.

Nas escolas públicas, hoje, embora muito se fale no trabalho coletivo e na valorização do trabalho do professor, há uma tendência a se reproduzir o mesmo modelo, no qual cada professor é considerado como uma das peças do processo. Assim, ele não pode inserir-se plenamente no processo, participando da definição das políticas, com condições de tempo, espaço e estrutura para interagir com seus pares e apropriar-se de seu próprio trabalho para realizar integralmente sua função social, que não é apenas a de transmitir o saber historicamente acumulado, mas, também produzir novos conhecimentos e formar sujeitos conscientes, capazes de atuar de forma plena na sociedade.


Mas apesar de tudo isso, esse não é um texto para colocar toda a culpa nos atores diretamente envolvidos. Olhando mais acuradamente, a gerência de ensino atende às demandas da Secretaria da Educação, esta, por sua vez, atende às demandas do Governo do Estado. E, ultimamente, tais demandas podem ser resumir a uma só ordem: cortes de "gastos". E enquanto a educação continuar a ser vista como despesa, e não como investimento, o Brasil segue como está...

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Afinal, o que torna o homem um ser possuidor de humanidade?

Eis mais um ensaio produzido na UA Reflexões sobre o Homem na Filosofia.

Afinal, o que torna o homem um ser possuidor de humanidade?

Flávia O. Alvim[1]

O cinema estadunidense tem proporcionado ao grande púbico, a oportunidade de oferecer uma reflexão acerca da nossa própria condição, enquanto seres pensantes, existenciais, intersubjetivos e puramente humanos. Reconhecendo a importância do cinema para a análise sobre o ser humano condicionado ao existir, analisaremos dois filmes intitulados O homem bicentenário (1999) do diretor Chris Columbus e o A. I. – Inteligência artificial (2001) do diretor Steven Spielberg. Ambos discutem a respeito de seres artificiais que apresentam características tipicamente humanas. Além de apontar os principais elementos constitutivos de tais produções cinematográficas referidas, utilizaremos como fio condutor de nossa análise antropológica-filosófica, os breves pensamentos dos filósofos Martin Heidegger e Jean-Paul Sartre sobre a condição do homem na existência humana, ou melhor, na vida.
Em se tratando da trama do filme O homem bicentenário, a história é a respeito de um robô que foi projetado (ou programado) para o trabalho doméstico, mas tal “ser artificial” foi visto como defeituoso pela empresa que o produziu, ao mesmo tempo em que “fascinou” o seu proprietário, devido ao seu senso artístico (construiu um cavalo feito de madeira para a filha de seu proprietário e depois, passou a fazer os relógios de pêndulo), a sua criatividade, a sua personalidade sociável e a sua curiosidade em compreender a complexidade do mundo humano. Percebendo a sua curiosidade, o proprietário se engajou em ensiná-lo sobre a realidade e a condição humana, enfatizando desde os aspectos biológicos aos sociáveis, pois sabia que havia ideias, conceitos, fatos, experiências que não estavam em sua programação. Diante disso, sob um viés sartreano, o proprietário estava investindo no vir-a-ser[2] de seu robô, ajudando-o a construir, moldar a sua realidade. A partir daí, a “existência precede a essência” [3], o que significa nas palavras de Sartre que

[...] primeiramente existe o homem, ele se deixa encontrar, surge no mundo, e que ele só se define depois. O homem tal como o concebe o existencialista não é definível porque, inicialmente, ele nada é. Ele só será depois, e ele será tal como ele se fizer. [...] O homem é apenas não somente tal como ele se concebe, mas tal como ele se quer, e como ele se concebe após existir, como ele se quer depois dessa vontade de existir – o homem é apenas aquilo que ele faz de si mesmo[4].

 Articulando essa noção sartreana com a relação do proprietário em ensinar as “coisas da vida existencial” para o robô, é possível que o “ser artificial” tenha a sua existência comprovada, através da “formação” que recebeu de seu proprietário e da sua busca por um sentido constante, isto, porque o robô incorporou o que é a sua essência[5] em momentos distintos de sua realidade vivida. Após tomar a base dos fatos históricos acerca da busca pela liberdade, o robô oferece dinheiro ao seu proprietário em vista de “ser livre”, mas é surpreendido pela consequência de sua própria escolha de “ser livre”: a incompreensão de seu proprietário, que o fez partir de sua casa. Saindo da casa de seu (ex)proprietário, o robô se transforma em um ser-no-mundo aos moldes heideggeriano, onde o mundo é “um conjunto de utensílios, ou seja, de coisas a utilizar, à mão, e não das coisas a contemplar como presentes”[6]. Estando no mundo, o robô procura construir seu próprio espaço, a aprender mais acerca da vida, a buscar por seus semelhantes e suas origens. Tomando posse de sua liberdade, que pelo viés sartreano o homem é responsável por tudo o que faz em sua vida[7], e se posicionando como um ser condicionado ao mundo, posteriormente, o robô decide se transformar em um andróide com feições humanas, além de melhorar o seu mecanismo com a inserção de órgãos artificiais, possibilitando que experimentasse o mundo com mais profundidade. Só que tais melhorias não permitiu que o tornasse um homem por completo, devido ao fato de que não compartilhava o destino de todo humano: a morte. Segundo Heidegger, o ser está sempre diante dessa possibilidade, porque o homem é um ente que está no mundo para a morte. Na verdade, a morte é

[...] uma possibilidade presente constantemente, e não distante. [...] esta possibilidade (a morte) é a última que o homem realiza; que enquanto ela chega falta ao homem alguma coisa, algo que ainda será. Ou seja, a vida humana só torna-se um todo por intermédio da morte[8].

A totalidade da vida é conquistada, conforme a visão heideggeriana, por meio da morte, pois ela é a única possibilidade de alcançar a individuação. Por isto, o robô-andróide consegue ser reconhecido como humano mais velho (200 anos de idade) pela sociedade, mesmo que tenha se programado para morrer, porque através da morte atingiria a sua individuação, como uma possibilidade que determina a totalidade de seu ser, que o limita e ao mesmo tempo em que permite ser completo[9].
Reconhecendo que existe elementos próximos entre os enredos do A.I. – Inteligência artificial e O homem bicentenário, pois ambos apresentam seres artificiais com comportamentos humanos, como a capacidade de amar, de possuírem sensibilidade com o seu meio “familiar” e a busca constante de querer alcançar algo que é inatingível na realidade. O A. I. – Inteligência artificial indica o paradoxo da vida humana frente a criação de robôs programados para suprir as necessidades afetivas e emocionais dos humanos. Após as catástrofes ecológicas, no século XXII, a humanidade passa a conviver com os seres artificiais, que são androides com réplicas das feições humanas e estes, não têm direitos civis reconhecidos e são obrigados pelo Governo a terem registro, pois sem este são destruídos. A trama da história é, inicialmente, em torno de um casal que tem um filho com uma doença rara e está criogenizado em vista de que seja curado. O marido para animar a sua esposa entristecida, aceita a proposta de uma empresa que produziu o primeiro robô criança, programado para amar e expressar sentimentos aos pais. Com o passar das semanas, o filho desse casal se recupera retornando para o seu lar. A partir disso, o drama do robô criança se torna tenso, devido ao afogamento acidental do filho do casal, causado pelo robô infantil. Por não ter coragem de mandá-lo de volta para a empresa, a esposa que estava angustiada pelo acidente do filho, abandona o robô criança numa floresta juntamente com o seu ursinho. Neste momento, o robô criança conhece as circunstâncias de outros robôs, que danificados, procuram peças para serem reutilizadas. Além de serem capturados pelos humanos para que sejam aniquilados na arena, o robô criança conhece um robô adulto programado para funções sexuais. Quando o robô criança juntamente com o adulto foram levados para a arena, se percebe o ódio e o repúdio dos humanos com as máquinas. Daí, podemos lembrar que o homem é um ser-para-outros no pensamento sartreano, isto é,

[...] o outro não é aquele que é visto por mim, mas muito mais aquele que me vê, aquele que se torna presente a mim, para além de qualquer dúvida, mantendo-me sob a opressão de seu olhar. [...]  O olhar do outro me fixa e me paralisa, ao passo que, quando o outro estava ausente, eu era livre, isto é, era sujeito e não objeto. Quando aparece o outro, portanto, nasce o conflito: “o conflito é o sentido original do ser-para-outros”. Diz ainda Sartre: “Minha queda original é a existência do outro”[10].

O robô criança e o robô adulto estavam passando pelo crivo dos humanos, sob o olhar inquiridor e discriminatório, por não pertencerem a espécie. Aqui, se deriva uma questão: ao mesmo tempo em que o ser humano cria ou projeta uma máquina ou um ser artificial, aquele para não perder a sua superioridade racional, destrói a sua criação ou a sua projeção. Escapando da arena, o robô criança e o robô adulto vão em busca da “fada azul”, para que o primeiro realize o seu sonho de se tornar um menino em vista de sua mãe amá-lo. Conseguindo receber informações acerca da “fada azul”, a qual foi direcionado ao seu criador, percebeu que não era o único robô infantil, mas que havia várias réplicas de sua série. Sendo assim, o robô criança ficou desiludido pelo que viu na empresa de seu criador e se jogou no oceano, encontrando uma estátua da “fada azul”. Após centenas de anos, os robôs mais evoluídos dominaram a terra e resgataram o robô criança, realizando o seu desejo de rever a sua mãe, pelo menos por um dia.
Percorremos pelas trilhas das tramas dos filmes O homem bicentenário e o A.I. – Inteligiência artificial, analisando os principais elementos de reflexão a respeito do que torna o homem ser humano, pois esta é a intenção apresentada por ambos, mesmo que as suas circunstâncias sejam distintas. Mas, a questão indicada é: “Até que ponto um ser artificial pode ser considerado humano, já que pode possuir feições e comportamentos humanos, como o raciocínio, sentimentos, sensibilidade e emoções?”. Ou melhor, “Como é possível transferirmos nossas características que nos tornam ‘humanos’ para seres com inteligência artificial, embora estes serão imortais diferentes de nós, que possuímos finitude existencial?”. O paradoxo que ambos os filmes apontam é que os seres artificiais, dificilmente serão reconhecidos e aceitos como seres a nível do homem, por causa de sua estimativa de vida que é mais prolongada do que a dos seus criadores. Afinal, o que nos define com um caráter iminentemente humano, não é somente o intelecto e os sentimentos, mas o destino impossível de ser escapado: a morte. Eis a possibilidade última do ser humano de se transformar em um ser com a vida em plena totalidade conquistada e completa.


REFERÊNCIAS:
A.I. – Inteligiência artificial. Direção: Steven Spielberg. Produtores: Steven Spielberg; Jan Harlan; Kathleen Kennedy; Walter F. Parkes; Bonnie Curtis. Burbank: Warner Bros. Pictures; DreamWorks Pictures, 2001. 1 DVD.
CHAUÍ, Marilena. Martin Heidegger: vida e obra. In: Os pensadores: Martin Heidegger – Conferências e Escritos Filosóficos. Trad. Ernildo Stein. São Paulo: Nova Cultural, 1996. p. 5-10.
MARCONDES, Danilo. Iniciação à História da Filosofia: Dos pré-socráticos a Wittgenstein. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.
NESI, Maria Juliani; MARQUES, Carlos Euclides. Reflexão sobre o homem na filosofia: livro didático. Palhoça: UnisulVirtual, 2017.
O HOMEM bicentenário. Direção: Chris Columbus. Produtores: Chris Columbus; Michael Barnathan; Laurence Mark; Wolfgang Petersen; Mark Radcliffe. Los Angeles: Columbia Pictures; Burbank: Touchstone Pictures, 1999. 1 DVD.
REALE, Giovanne; ANTISERI, Dario. História da Filosofia: De Nietzsche à Escola de Frankfurt. São Paulo: Paulus, 2006.
SARTRE, Jean-Paul. O Existencialismo é humanismo. Disponível em: <http://stoa.usp.br/alexccarneiro/files/-1/4529/sartre_exitencialismo_humanismo.pdf>. Acesso em: 20 mar. 2017.
WATANABE, Adriano; BRESSAM; Alessandra; PARDAL, Poliana P. M. Conceitos do Existencialismo vistos sob a ótica de Martin Heidegger. Brasil Escola. Disponível em: <http://meuartigo.brasilescola.uol.com.br/filosofia/conceitos-existencialismo-vistos-martin-heidegger.htm>. Acesso em: 10 abr. 2016.



[1] Estudante do curso de Filosofia – Bacharelado da Unisul Virtual.
[2] NESI, Maria Juliani; MARQUES, Carlos Euclides. Reflexão sobre o homem na filosofia: livro didático. Palhoça: UnisulVirtual, 2017. p. 122.
[3] Para fundamentar a sua perspectiva filosófica acerca do existencialismo, o filósofo francês Jean-Paul Sartre “tomou” esta máxima “existência precede a essência” do filósofo alemão Martin Heidegger. (NESI, Maria Juliani; MARQUES, Carlos Euclides. Reflexão sobre o homem na filosofia: livro didático. Palhoça: UnisulVirtual, 2017. p.118-119.)
[4] SARTRE, Jean-Paul. O Existencialismo é humanismo. Disponível em: <http://stoa.usp.br/alexccarneiro/files/-1/4529/sartre_exitencialismo_humanismo.pdf>. p.4
[5] Aqui, a palavra “essência” é compreendida como “é o que faz com que uma coisa seja o que é, e não outra coisa”. (NESI, Maria Juliani; MARQUES, Carlos Euclides. Reflexão sobre o homem na filosofia: livro didático. Palhoça: UnisulVirtual, 2017. p. 119).
[6] REALE, Giovanne; ANTISERI, Dario. História da Filosofia: De Nietzsche à Escola de Frankfurt. São Paulo: Paulus, 2006. p. 205.
[7] Ibid., p. 228.
[8] WATANABE, Adriano; BRESSAM; Alessandra; PARDAL, Poliana P. M. Conceitos do Existencialismo vistos sob a ótica de Martin Heidegger. Brasil Escola. Disponível em: <http://meuartigo.brasilescola.uol.com.br/filosofia/conceitos-existencialismo-vistos-martin-heidegger.htm>.
[9] WATANABE; BRESSAM; PARDAL, op. cit.
[10] REALE, Giovanne; ANTISERI, Dario. História da Filosofia: De Nietzsche à Escola de Frankfurt. São Paulo: Paulus, 2006. p. 229.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Esclarecimento como condição para uma liberdade consciente, por Eric de Souza Pires

Na Unidade de aprendizagem "Reflexão sobre o Homem na Filosofia", propus uma reflexão que tomasse alguns filmes previamente listados e algumas concepções antropológico-filosófica, Estou estimulando a publicação neste espaço de alguns dos ensaios produzidos. Eis o primeiro.

Esclarecimento como condição para uma liberdade consciente
Eric de Souza Pires[1]
                                                                                                                     

Introdução

            Este trabalho pretende apresentar uma breve resenha dos filmes A Onda (2008) e Kids (1994), escolhidos para servir como base para algumas considerações de caráter filosófico acerca da condição da existência humana. Os acontecimentos referidos em A Onda serão analisados à luz de um pequeno artigo de Immanuel Kant, enquanto que Kids será examinado sob a ótica desse mesmo texto e de outro também muito conhecido, de autoria de Jean-Paul Sartre.


Desenvolvimento

De acordo com a Wikipédia (2017), o filme A Onda, produzido na Alemanha em 2008, é a versão cinematográfica de um experimento realizado em 1967 por Ron Jones, professor de História em uma escola secundária de Palo Alto, Califórnia. No filme, Rainer Wenger, um professor de Ciências Políticas, é designado para realizar um projeto com duração de uma semana, ao longo do qual o tema “autocracia” seria discutido em uma classe de alunos previamente inscritos. Logo que ele menciona o nazismo como exemplo de ideologia adotada por um governo autocrático, a turma manifesta desinteresse, pois todos consideram impossível que tal regime se repetisse na atualidade.
Diante desse posicionamento, o professor assume uma postura rígida e impõe que os alunos se sentem com as costas retas, realizem uma série de exercícios respiratórios e se levantem toda vez que quiserem dizer algo. Dois ou três que não concordam com as regras são sumariamente excluídos da disciplina. Durante o resto da aula, o professor, que a partir de então deveria ser chamado por todos de Sr. Wenger, passa a discorrer acerca da importância da disciplina em qualquer regime ditatorial.
No dia seguinte, uma terça-feira, são realizados exercícios em conjunto com intuito de formar uma unidade e de acabar com os grupinhos. A turma deveria mostrar-se coesa porque “união é poder”. No terceiro dia do projeto, alunos que não estavam matriculados, mas que tomaram conhecimento das dinâmicas pouco convencionais das aulas, pedem para participar. São escolhidos um uniforme e um nome para o grupo (A Onda) e, inspirados pelo bordão “Ação é poder”, os participantes decidem utilizar seu tempo e habilidades pessoais para produzir um site e uma logo para o grupo, que é espalhada por vários locais públicos da cidade por meio de adesivos e de pichação.
Na quinta-feira, criam uma saudação ao estilo nazista, ao mesmo tempo em que discriminam os demais alunos da escola que não fazem parte d’A Onda. Na sexta, o professor, um tanto assustado com as dimensões que a experiência está tomando, pede que elaborem uma redação sobre o que vivenciaram ao longo daquela semana.
Por fim, no último dia, Wenger reúne os participantes em um auditório e discursa, para uma turma assustada e incrédula, sobre o quanto eles se deixaram levar pela mesma ideologia que tornou possível o surgimento do nazismo numa nação que outrora também caiu na armadilha, ludibriada por um ditador que pregava uma pretensa superioridade racial ariana.
Difícil resistir à tentativa de relacionar a experiência de Palo Alto, retratada no filme A Onda, com o texto Resposta à pergunta: “O que é o Esclarecimento”, de Immanuel Kant. Os alunos, que inicialmente consideravam o nazismo como um anacronismo, acabam se deixando dominar pela personalidade ao mesmo tempo carismática e firme do Sr. Wenger, que, utilizando técnicas simples, consegue fomentar união onde antes só havia indivíduos isolados ou pequenos grupos esparsos. Ele sabe que a necessidade de pertencer a uma comunidade, de fazer parte de um coletivo, natural no ser humano, é ainda mais forte nos adolescentes. Isso fica claro quando um deles, em uma festa logo no início do filme, diz para outro: “O que falta para a nossa geração é um objetivo comum para unir a gente” (A ONDA, 2008). No entanto, desejar um objetivo não significa ser capaz de escolher um. Para tal é preciso que se tenha saído da menoridade, termo cunhado por Kant para designar a incapacidade que algumas pessoas têm de pensar por si mesmas, sem a direção de alguém. E, de acordo com o filósofo alemão, “o homem é o próprio culpado dessa menoridade se a causa dela não se encontra na falta de entendimento, mas na falta de decisão e coragem para servir-se de si mesmo [...]” (KANT, 2009, p. 63).
Ao aceitarem sem reservas a direção autocrática do professor (um dos alunos, inclusive, se voluntaria para ser seu guarda-costas), ao se submeterem cegamente às regras por ele impostas como condição para fazer parte de um grupo sectário, intolerante e exclusivista, os alunos demonstraram que ainda não adquiriram a competência necessária para agir livremente. Infelizmente, o caso apresentado no filme não constitui exceção, pois, conforme afirma Kant (2009, p. 64-65), “são muito poucos aqueles que conseguiram, pela transformação do próprio espírito, emergir da menoridade e empreender então uma marcha segura”.

O enredo de Kids é bem mais simples que o de A Onda, embora não menos dramático. O filme se passa em meados dos anos 1990 e mostra um dia na vida de um grupo de adolescentes moradores da periferia de Nova York. Ociosos, sem objetivos, perspectiva ou mesmo esperança, adotam um comportamento violento e praticam uma série de atividades autodestrutivas, como sexo sem proteção e consumo indiscriminado de drogas.
Nesse contexto, Ruby, uma jovem de dezessete anos que já havia tido nove parceiros sexuais, vai a um posto de saúde realizar o teste de HIV. Apesar da promiscuidade em que vive, o resultado dá negativo. No entanto, o teste de Jennie, um ano mais nova e que foi apenas acompanhar a amiga, dá positivo, apesar de só ter transado uma única vez.
O drama segue mostrando uma sequência de atitudes irresponsáveis e inconsequentes praticadas por esses adolescentes e até por seus irmãos, ainda crianças, no intuito de fruir um gozo de prazeres desenfreados em plena época de recrudescimento da AIDS. Entre os jovens se destaca Telly, o rapaz que havia infectado Jennie e que, ao longo do filme, ainda irá transmitir o vírus para mais duas garotas.
Talvez fosse possível enquadrar Kids na mesma linha da abordagem anterior, ou seja: jovens que, na condição de menoridade, não estariam aptos a orientarem suas próprias vidas. Haveria, contudo, necessidade de uma adaptação significativa: o líder dirigente não estaria mais encarnado na figura de uma única pessoa, uma vez que o próprio grupo passaria a assumir essa função. Em outras palavras, seria como se o indivíduo, ao entrar em contato com o grupo, deixasse de ser um sujeito específico e se tornasse um elemento autômato, submisso às diretrizes de uma coletividade dominadora capaz de destituir de consciência, raciocínio ou vontade cada um de seus membros. Nessa situação, o sujeito assume a conduta que ele acha que o grupo espera dele, ao mesmo tempo em que cobra dos demais integrantes uma postura semelhante. Carentes de esclarecimento, tornam-se vítimas de um terrível ciclo vicioso, no qual todos assumem simultaneamente o papel de dirigentes e dirigidos.
O existencialismo parece ser um viés alternativo para examinar as questões que o filme apresenta. Para Sartre (2014, p. 53), o homem “não está feito de antemão, mas se faz escolhendo a sua moral”. A moral escolhida pelos protagonistas de Kids é o hedonismo puro e simples. É isso que o grupo espera deles e o que eles esperam fazer de si mesmos: gozar a vida ao máximo, sem limites. Ao encarregar-se de seu próprio destino, o grupo estaria vivendo uma vida autêntica, conforme os princípios existencialistas. No entanto, ao mesmo tempo em que Sartre afirma que a liberdade é inerente à condição humana, alerta para o fato de que, “uma vez lançado no mundo, [o homem] é responsável por tudo o que faz” (SARTRE, 2014, p. 33). A triste situação de Jennie espelha bem esse ponto: se o homem é livre para integrar um grupo no qual o comportamento desvairado é a norma, deverá arcar com as consequências funestas que dele possam advir.


Considerações Finais

            Da mesma forma que os dois filmes abordados nesse trabalho retratam situações graves e ainda muito presentes em nossa sociedade – a falta de esclarecimento e a liberdade insensata da maioria da população –, as ideias fundamentais que Kant e Sartre defendem nos textos citados parecem se complementar. O filósofo alemão aponta para a necessidade (e a dificuldade) que tantas pessoas têm de emergir da direção limitadora de algum tutor. De sua parte, o pensador francês sustenta que a liberdade é inerente ao ser humano, mas chama a atenção para a responsabilidade que dela decorre. Ora, se caberá a cada indivíduo a responsabilidade pelo uso que fizer de sua liberdade, nada melhor que escolher com critério as atitudes que vai tomar. E para fazer uma boa escolha é preciso que seja capaz de usar a razão, ou seja: de refletir, julgar e, acima de tudo, de pensar por si mesmo.


Referências

A ONDA. Diretor: Dennis Gansel. Produtor: Christian Becker, Niina Maag, Anita Schneider. Munique: Constantin Film, 2008. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=QBKEi8qamKM>. Acesso em: 25 mar. 2017.

KANT, Immanuel. Resposta à pergunta: “O que é o Esclarecimento”. In: ______. Textos seletos. Petrópolis: Vozes, 2009. cap. 4, p. 63-71.

KIDS. Diretor: Larry Clark. Produtor: Gus Van Sant. Santa Monica: Miramax, 1994. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=Kk5kQKjhKhs>. Acesso em: 25 mar. 2017.

SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. Petrópolis: Vozes, 2014.

WIKIPÉDIA. A terceira onda. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Terceira_Onda>. Acesso em: 27 mar. 2017.


[1] Acadêmico do curso de Filosofia da UnisulVirtual.